APROVADOS/2015

DRIELLY QUITAKAWA FERREIRA DA SILVA -

ENGENHARIA FLORESTAL - UEM/PR

EDSON PRANDINI JÚNIOR - FISIOTERAPIA - UFMS/MS

SOFIA BEATRIZ PESSINI - FISIOTERAPIA - UFMS/MS

RAÍSSA A. VIEIRA - MEDICINA - UFU/MG - 1o. lugar
- USP/R.P. -70o./100.

O MISTÉRIO DAS LÁGRIMAS DE CRISTAL

Modalidade: Narração
Proposta: Transformar reportagem jornalística em narração
Manchete: Desmascarado milagre das lágrimas de cristal




Meu nome é Hasnah Meselmani, moro no vale do Bekaa no Líbano, com meu pai. Tenho 12 anos e sinto uma enorme saudade de minha mãe que não aparece há muito tempo.
Morar somente com meu pai não é exatamente ter uma família, pois a maior parte do tempo ele estava rezando e seguindo os ensinamentos de Alá. Sempre me virei sozinha, mas o problema foi e continuará sendo a falta de amor e atenção. Sou quase moça, mas ainda criança. Estava perdida, precisando muito dele. Foi o único jeito...
_ Hasnah, você tem que entender, filha, que sou um homem de fé, não posso passar todas as tardes em casa. Lá fora existem pessoas que precisam mais de mim que de você. _ disse-me calmamente enquanto se preparava para sair.
_ Aposto que até Maomé queria que o senhor ficasse! - queixei em voz baixa, quase derramando lagrimas.
_ Se ele quisesse, filha, já teria me mandado um sinal.
Foi depois dessa conversa que entendi que só teria a atenção de meu pai se eu fosse um milagre, um testemunho de fé.
Passei o resto daquele dia pensando no que meu pai esperaria de mim. Teria que ser algo majestoso, já que ser eu mesma não estava adiantando. O que será que o deixaria orgulhoso? Pensar em tudo aquilo me deixava desolada. Lágrimas caíam de meus olhos. Apesar de elas serem o reflexo do meu sofrimento, eram lindas e brilhantes. Se fossem de felicidade, seria com certeza um milagre. Estava, então, decidido.
Antes de meu pai chegar, deixei tudo planejado. Estourei um dos meus colares de cristal e, com cuidado, coloquei seis pedrinhas no meu olho esquerdo, o que, curiosamente, se encaixou, e no chão deixei cacos de vidro para criar meu cenário.
_ Hasnah, cheguei! O que houve nessa casa? _ perguntou, assustado com os cacos ao chão.
Logo que ele saiu para buscar a vassoura, corri e recolhi todos os pedacinhos de vidro, sem deixar nenhum. Quando ele voltou, estava tudo normal. De diferente, só encontrou a mim chorando cristais. Impressionado, meu pai tocou meus olhos e caíram gota por gota como se fosse mágica.
_ Filha!
Foi o filha que eu sempre esperei escutar.
_ Pai, recebi a visita de Ali Bem Abu Taleb e, depois, isso! O que eu tenho, pai?
_ Você é meu milagre!
A partir de então, seus olhos viviam brilhando, ele nunca havia me amado tanto. Para todo mundo ele falava de mim, com voz firme, cheio de orgulho.
O meu plano tinha dado certo, era uma pena ter que mentir para receber carinho, mas depois de dias fazendo isso e cada vez mais amada, perdi o medo e a vergonha, até passei a usar lenço na cabeça, pois era um sinal de apego à religião.
Com o tempo, colocar os cristais passou a ser um pouco incômodo. Já que não tinha como não pôr, toda manhã meu pai vinha, me acordava e íamos à janela mostrar para todo mundo o milagre das lágrimas de cristal.
Foi assim por oito meses, até que o mistério chegou à Arábia Saudita e, claro, uma junta médica de lá veio comprovar o caso, pois nenhum assunto religioso passava despercebido.
Examinaram-me e descobriram que eu tinha uma cavidade por onde subiam as pedrinhas, porém era impossível meu corpo fabricá-las. Ou seja, a mentira havia acabado.
Não estava preocupada com o que as pessoas diriam sobre mim, só pensava em como seria triste, viver novamente sem atenção. Por opinião médica, comecei a tratar meu psiquismo e meu pai o dele. Íamos juntos às sessões e, com o passar do tempo, fomos nos perdoando até que a convivência ficou mais fácil.
Hoje em dia, me sinto mais segura e entendo que a falta que minha mãe faz não justifica mentiras. Será difícil passar pela adolescência sem ela. Meu primeiro amor, minha vaidade, meus problemas de mulher ficaram algum tempo sem solução. Mas já que só tenho meu pai, e meu pai só tem a mim, um dia nós aprenderemos a ser uma família.




Letícia Becerra Franco, 17.

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